O câncer de colo do útero não apresenta as mesmas características biológicas desde o seu início. No diagnóstico clínico e patológico, os termos “carcinoma in situ” e “carcinoma invasivo” representam diferentes estágios da evolução da lesão maligna do colo do útero. Existem diferenças importantes entre eles no que diz respeito à ultrapassagem da membrana basal pelas células cancerosas, capacidade de infiltração e metástase, além das modalidades de tratamento e avaliação de prognóstico.
De forma simplificada, o carcinoma in situ corresponde a células malignas anômalas restritas ao epitélio do colo do útero, que ainda não ultrapassaram a membrana basal para infiltrar tecidos mais profundos. Já no carcinoma invasivo, as células cancerosas romperam a membrana basal e invadiram o estroma do colo uterino, com potencial de acometer tecidos adjacentes e gerar metástases linfáticas ou à distância.
É importante ressaltar que, no diagnóstico patológico moderno do câncer de colo do útero, a nomenclatura e a classificação das lesões epiteliais de alto grau e do carcinoma in situ devem ser definidas com base no exame histopatológico, não podendo ser determinadas apenas por sintomas ou resultados de rastreamento cervical.
O que é carcinoma in situ do colo do útero?
O carcinoma in situ do colo do útero (CIS, do inglês carcinoma in situ) caracteriza‑se por alterações malignas nas células epiteliais cervicais, mas as células anômalas permanecem confinadas à camada epitelial, sem ultrapassar a membrana basal para o estroma subjacente do colo do útero.
Do ponto de vista patológico, “a ultrapassagem ou não da membrana basal” é o ponto‑chave para diferenciar lesões in situ de lesões invasivas. Apesar de não haver infiltração verdadeira do estroma nas lesões in situ, elas não devem ser negligenciadas. Algumas lesões epiteliais cervicais de alto grau apresentam risco de evoluir para o carcinoma invasivo do colo do útero, sendo necessária conduta padronizada considerando o resultado patológico, extensão da lesão, idade da paciente e demanda reprodutiva.
Na patologia cervical contemporânea, o termo “carcinoma in situ” não pode ser equiparado a todas as lesões epiteliais cervicais de alto grau (HSIL/CIN3). Para lesões de epitélio escamoso e de epitélio glandular, os laudos patológicos podem adotar terminologias distintas, como HSIL/CIN3 ou adenocarcinoma in situ (AIS). Dessa forma, o diagnóstico definitivo deve se basear no laudo histopatológico completo.
O que é carcinoma invasivo do colo do útero?
O carcinoma invasivo do colo do útero corresponde à situação em que as células cancerosas romperam a membrana basal, que separa o epitélio do estroma cervical, e invadiram o tecido estromal do colo uterino.
Diferente das lesões restritas ao epitélio, o carcinoma invasivo já possui capacidade de invadir estruturas adjacentes. Com a progressão da doença, pode acometer tecidos parauterinos, vagina e outras estruturas vizinhas, além de provocar metástases em linfonodos ou órgãos distantes por meio do sistema linfático ou sanguíneo.
Após o diagnóstico de carcinoma invasivo do colo do útero, é necessário definir o tipo histológico, tamanho do tumor, extensão da infiltração, comprometimento linfonodal e presença de metástases à distância, para definir o tratamento conforme o estágio da doença. Dependendo do quadro, as opções terapêuticas incluem cirurgia, radioterapia, quimiorradioterapia concomitante, quimioterapia, terapia alvo ou imunoterapia.
Em resumo:
● Carcinoma in situ: células com alterações malignas permanecem restritas ao epitélio, sem romper a membrana basal.
● Carcinoma invasivo: células cancerosas ultrapassam a membrana basal, invadem o estroma cervical e causam infiltração tecidual real.
Contudo, a avaliação clínica não deve ser feita apenas com base nos termos “in situ” ou “invasivo”. É indispensável analisar o laudo patológico completo e os exames complementares, com avaliação por um profissional médico especializado.
Quais são as diferenças entre carcinoma in situ e carcinoma invasivo?
A diferença central é se as células cancerosas ultrapassaram a membrana basal e invadiram o estroma cervical.
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Item de comparação |
Carcinoma in situ |
Carcinoma invasivo |
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Localização das células cancerosas |
Restritas ao epitélio |
Presentes no tecido estromal |
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Ultrapassagem da membrana basal |
Não ultrapassada |
Rompida |
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Infiltração tecidual |
Sem infiltração real do estroma |
Presença de infiltração estromal |
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Risco de metástase |
Por definição, não possui capacidade de infiltração e metástase |
Pode gerar metástases linfáticas ou à distância conforme a progressão |
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Foco do tratamento |
Controle da lesão local e prevenção de progressão |
Tratamento multimodal: cirurgia, radioterapia, quimioterapia, terapia alvo ou imunoterapia, conforme o estágio |
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Significado do estadiamento |
Geralmente enquadrado como lesão pré‑cancerosa ou carcinoma muito inicial, conforme laudo patológico |
Requer estadiamento oncológico formal e avaliação de riscos |
Portanto, “a ultrapassagem da membrana basal” é o conceito fundamental para diferenciar as duas condições.
Como é realizado o diagnóstico do câncer de colo do útero?
O diagnóstico do câncer de colo do útero não depende de um único exame, e sim da combinação de rastreamento, colposcopia e análise patológica.
1. Teste para HPV e citologia cervical A infecção persistente por HPV de alto risco é um importante fator de risco para o desenvolvimento do câncer de colo do útero. Atualmente, o rastreamento inclui o teste para HPV de alto risco, citologia cervical ou rastreamento combinado, conforme indicação clínica.
É fundamental compreender que:
● Resultado positivo para HPV não equivale a diagnóstico de câncer de colo do útero.
● A maioria das infecções por HPV é eliminada pelo organismo. Apenas algumas infecções persistentes por HPV de alto risco podem evoluir por meio de lesões epiteliais cervicais até o desenvolvimento de câncer.
2. Colposcopia Em caso de alterações nos exames de rastreamento, o médico pode indicar colposcopia. Esse exame permite a visualização ampliada de áreas suspeitas no colo do útero e define a necessidade de biópsia.
3. Exame histopatológico de tecido cervical O exame patológico é o principal método para definir a natureza das lesões cervicais. Por meio de biópsia cervical ou conização, amostras de tecido são coletadas. O patologista analisa a morfologia celular e a arquitetura tecidual para identificar lesões epiteliais de alto grau, carcinoma in situ ou carcinoma invasivo, além de avaliar profundidade, extensão da infiltração e outros parâmetros patológicos relevantes.
Se o laudo apresentar termos técnicos como “carcinoma in situ”, “invasão” ou “infiltração estromal”, não interprete o quadro apenas por palavras isoladas. Consulte um ginecologista ou patologista com o laudo completo.
Quais as diferenças no tratamento entre carcinoma in situ e carcinoma invasivo do colo do útero?
As estratégias terapêuticas são bastante distintas.
Para lesões epiteliais de alto grau ou lesões com características de carcinoma in situ, o tratamento visa remover completamente a lesão local e reduzir o risco de progressão para carcinoma invasivo. A conduta é definida conforme extensão da lesão, situação das margens cirúrgicas, idade da paciente e desejo reprodutivo.
Já no carcinoma invasivo do colo do útero confirmado, o tratamento é planejado com base no estágio da doença, tipo histológico, tamanho do tumor, comprometimento linfonodal e condições gerais da paciente.
As possíveis abordagens incluem: ‑ Cirurgia ‑ Radioterapia ‑ Quimiorradioterapia concomitante ‑ Quimioterapia ‑ Terapia alvo ‑ Imunoterapia ‑ Outras terapias sistêmicas aprovadas
Nem todos os pacientes com carcinoma invasivo do colo do útero receberão todas essas modalidades. O esquema terapêutico deve ser definido por uma equipe especializada em ginecologia oncológica, considerando o estágio e as características individuais.
Quais são os avanços relevantes no combate ao câncer de colo do útero em 2026?
Até 2026, os eixos globais de prevenção e controle do câncer de colo do útero continuam sendo a vacinação contra HPV, ampliação do acesso a exames de rastreamento de alta performance e tratamento oportuno de lesões pré‑cancerosas e do câncer invasivo.
Dados atualizados da OMS de julho de 2026 apontam cerca de 604 mil novos casos de câncer de colo do útero e aproximadamente 280 mil mortes pela doença no mundo em 2024. A OMS reforça que o câncer de colo do útero é amplamente evitável por meio da vacinação contra HPV e rastreamento periódico, e que casos diagnosticados precocemente têm potencial de cura com tratamento adequado.
Os métodos de rastreamento também vêm sendo otimizados. Segundo a OMS, a autocoleta de amostras para teste de HPV apresenta confiabilidade comparável à coleta realizada por profissionais de saúde em estudos, ampliando as possibilidades de acesso ao rastreamento.
Na perspectiva de saúde pública global, a OMS mantém a meta 90‑70‑90 para a eliminação do câncer de colo do útero: ampliar a cobertura vacinal contra HPV, aumentar a taxa de rastreamento entre mulheres e garantir que a grande maioria das pessoas com lesões pré‑cancerosas ou câncer de colo do útero receba tratamento adequado.
Isso significa que o foco futuro do controle da doença não é apenas tratar o câncer já instalado, mas interromper sua evolução ainda na fase de lesão pré‑cancerosa ou estágios ainda mais precoces.
Considerações finais
A diferença fundamental entre carcinoma in situ e carcinoma invasivo do colo do útero reside na ultrapassagem da membrana basal pelas células tumorais.
As lesões in situ permanecem restritas ao epitélio cervical, sem infiltração estromal característica. Já o carcinoma invasivo rompe a membrana basal e invade o estroma, exigindo avaliação detalhada da profundidade de infiltração, tamanho do tumor, comprometimento linfonodal e metástases à distância.
Lembre‑se sempre: ‑ Resultado positivo para HPV não é sinônimo de câncer de colo do útero; ‑ Carcinoma in situ não corresponde a câncer em estágio avançado; ‑ Carcinoma invasivo também não significa automaticamente doença em fase terminal.
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